Os Músicos do Tejo
Orquestra Barroca
Mosteiro de Alcobaça · Cerca
25 de julho de 2020
A desordem natural das coisas

Um batalhão pacífico de cadeiras espalhadas estrategicamente no teatro de operações alinhadas numa marcha imóvel, mas prontas para o embate, também ele, pacífico. Enquanto isso, na dianteira e na traseira do pelotão, afinam-se os últimos preparativos e acerta-se o passo neste campo de batalha não belicista. Os generais preparam as estratégias e os sargentos arregimentam os soldados para criar uma desordem natural das coisas.

Nos corredores, na expectativa, preparam-se também os músicos da Orquestra Barroca. Alheios a qualquer combate e com uma aura quase angelical. À espera do tiro de pólvora seca para o episódio para o qual se prepararam durante grande parte da sua vida. Quebrando o clima de tensão e focando apenas na missão que têm pela frente.

Em tempos de guerra não se limpam as armas. Nunca entendi bem a comparação entre o combate à pandemia e uma guerra de facto.

Mas durante muito tempo lidamos com esta comparação. E lidamos com táticas e esforços muito semelhantes aos de um conflito maior que nós próprios. Nós contra o vírus.

Enq uanto isso, lá fora, acorrem os espetadores, voyeurs, ávidos de ação e entusiasmo. Estes tempos de pandemia alteram rotinas mas não apagam o essencial: a fruição da liberdade materializada, neste caso, pelo consumo cultural, tão necessário quanto luxuoso para a condição humana.

Com todos os preparativos concluídos, eis que chega a hora. As notas dão lugar a disparos, os tons substituem as escaramuças e os andamentos revezam avanços e recuos. Tudo no mesmo lugar e ao mesmo tempo. E, no final, ninguém sai lesado. E, também no final, está tudo calmo, como se nada se tivesse passado. A calmaria depois da tempestade. Como se tudo voltasse ao normal. Deve ser isto a nova normalidade.

Assista a um excerto do espetáculo

"Do Barroco ao Fado" é um projeto centrado na identidade portuguesa que evoca uma efeméride particularmente importante entre nós, os 100 anos do nascimento de Amália Rodrigues. Pela mão do agrupamento Os Músicos do Tejo, sintetiza-se uma história com mais de oito séculos, combinando tradição oral e música escrita e cruzando peças para guitarra portuguesa, com música medieval, árabe e galega, expressões do barroco, o fado, a modinha e o lundum, para terminar na verdadeira exaltação da poesia através da música como o fez Amália Rodrigues e Alain Oulman.

“Apesar da situação pandémica, a manutenção do Festival é salutar e digna de louvar. Deixo uma mensagem de reconhecimento à organização pela forma como prepararam toda a logística do Festival e mantiveram um programa de grande qualidade. Estou felicíssimo por ter vindo e, em nome da DG Artes, o Festival merece o reconhecimento público”.


Helder Bruno
Pianista, Compositor e Avaliador da DG Artes

“Foi um prazer voltar, depois de vários concertos que já fizemos neste Festival, ver as pessoas apaixonadas pela arte e pela música. É das paixões mais bem intencionadas: a música é humana e é uma certa forma de humildade, valor que hoje é tão importante lembrarmos, face à pandemia e face à emergência climática. Temos de saber mudar e a música ensina-nos também a saber mudar.”

Marcos Magalhães
Director e Maestro d’Os Músicos do Tejo